Sobre os lixos que carregamos nos bolsos

“Lixo é um negócio engraçado e perigoso né?”

O professor lia o texto, falava, falava e falava, ele olhava o relógio, 08:03.

O professor virava a página, lia o texto, falava, falava e falava, ele olhava o relógio, 08:04.

Ele meteu a mão no bolso, pegou uma balinha vermelha, tirou da embalagem e comeu. Sem nem pensar direito colocou o papel no bolso. “Quando passar pela lixeira jogo lá”

Seguiu sua rotina, esperou a chamada, saiu da sala, pegou o ônibus, abriu outra balinha, mais um papel no bolso, chegou em casa, trocou a roupa, seguiu seus estudos.

Parou, pegou o celular, leu as mensagens regulares em um grupo, se indignou.

Alguns lixos são simples papéis de bala, outros são cupons de biblioteca, um panfleto pequeno que se pega sem graça, sem graça.

Tem gente que a gente não gosta, não importa o que aconteça, a gente não gosta, a gente até tenta, mas sem empregar muito esforço, a gente não gosta.

Tem gente que a gente gosta, mas decepciona a gente pela falta de consideração, e aí magoa, mesmo que o outro não tenha feito por mal.

Tem lixo que é coisa pequena, do dia a dia, tem lixo que a gente carrega no bolso e que na verdade é maior que a gente.

A gente tira do bolso as palavras, armadas com tudo que é lixo que a gente consegue juntar, e aí joga de volta pra essa gente, isso é até catártico, não vou mentir pra você não, saber que apertou os pontinhos que doem naquela pessoa que você já não gosta muito, por mais moralmente duvidoso que seja, dá um certo alívio.

Gente que a gente não gosta, gente que a gente gostava, gente que a gente gosta.

Quando a gente percebe que usou um lixo nosso pra magoar gente que a gente gosta bate uma sensação ruim né?

Semana seguinte, ele cumpre o mesmo ritual. “Quando passar pela lixeira jogo lá”
E assim já se fazem uns montes, nada mais cabe no bolso, a gente usa o item pra fazer outro item, a gente usa esse outro item pra fazer uns estragos, a gente faz uns estragos bons mas o bolso continua bem cheio de lixo.

Parece que o bolso foi feito pra carregar lixo.

Mas ainda piora.

Piora porque parece que tem gente especialista em fazer a gente usar esse lixo.
Parece não, tem!

Tem gente que aperta nosso botões e por mais que a gente não queira, a gente despeja golpes muito fortes com nossas espadas de lixo.

Piora…

Tem gente que faz de um tudo pra usar todo esse lixo que você carrega no bolso.

Gente que projeta seu lixo contra determinadas pessoas, ideias, grupos, instituições.

Tudo que a gente precisava era ter jogado o lixo numa lixeira, mas porque colocamos pra dentro dos nossos bolsos, tem aí um bolso maior, mais visível carregando mais lixo, se identificando com o seu bolso, carregando lixo pra cima e pra baixo. Pra cada lixo que você tiver ele tem um lixo correspondente, e o que ele faz?

Te ensina a usar o lixo como arma contra os outros.

Lembra que é catártico? Pois é, é assim, identificando e correspondendo lixo por lixo, que essa situação que já não é fácil, com um tio sentado lendo e falando, falando e falando, fica pior.

Piora porque divide mais, separa mais, dificulta mais ainda o estar junto, o ser igual, o caminhar junto.

Levanta e joga o lixo fora, esvazia seu bolso, lugar de lixo sempre foi na lixeira, não no bolso.

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