O Mago, o rei e o dragão.

Um velho mago caminhava sobre o pedregoso terreno da estrada de Trit até Burein, o sol se punha no horizonte por detrás da pequena cidade de Burein, o mago a olhou do alto de uma pequena colina à beira da estrada, puxou uma maçã e pôs se a comer enquanto o sol se punha, decidiu que acamparia ao relento nesta noite, “amanhã à primeira luz adentro a cidade e me resolvo”.

A noite caiu estrelada, o vento abafado não oferecia nenhum tipo de brisa que fosse suave e amenizasse o calor, a luz das duas luas clareavam bastante a noite, porém o velho mago não se sente prejudicado por isso, não monta uma barraca, apenas deitou-se em uma pedra e pôs-se a observar estrelas.

Quatro anos após sua primeira visita a Burein, suas memórias eram conflitantes, as estrelas dançavam e se negavam a contar ao mago qualquer coisa que lhe fosse relevante, sentiu um formigamento na mão direita, conhecia a sensação, repetiu um encantamento e uma aura azulada cobriu seu corpo.

As luas iam altas, seu colar brilhava à sua luz, a constelação do dragão apareceria em alguns instantes girando em volta da primeira lua, que logo sumia do céu, ele já era capaz de ver algumas de suas estrelas no céu, dois guardas passaram à cavalo na estrada perto dele, não o notaram, apesar de sua aura azul, achou melhor, não queria companhia.

Os lobos uivavam alto e perto dele enquanto o dragão circundava a lua, os ciumes dos lobos o distraía, logo a lua passaria ao próximo quadrante do céu quase que empurrada pelas estrelas da ursa e o dragão ficaria pra trás até desaparecer aos primeiros raios de sol, recitou para si a lenda antiga do dragão Selenyum e sua empreitada para devorar as duas luas. O tolo dragão acreditava que assim absorveria suas propriedades mágicas, e então seria dono de tudo que há para ter, os lobos, os ursos, os elfos e os centauros se uniram no céu para combatê-lo, o dragão, no entanto, minorava a todos, devorou a primeira lua deixando a noite mais densa e escura. Quando começara a devorar a segunda, o elfo azul da constelação de Alobar finalmente acertou Selenyum, todos notaram que a flecha pouco fizera, bocarra do dragão estava partida, não era grande o suficiente para a segunda Lua, ursos empurraram a segunda lua para o lado dos lobos, mas, ao invés de absorver as propriedades mágicas de uma lua, o dragão ficou estático, com os olhos brilhando prateados, incapaz de se mover, apenas girando eternamente em seu lugar.

Girou para um lado, girou para o outro, sentou-se, observou a cidade sob a intensa luz prateada da noite.

Levantou-se, esticou-se, andou até a beirada da pedra onde estivera deitado, conjurou uma magia que empilhou algumas rochas, sentou-se como se em uma poltrona, e assistiu enquanto as primeiras luzes do dia projetavam sua sombra no caminho à frente, achava que as sombras eram engraçadas, ilusões reais, cuja existência paradoxalmente dependia da única coisa que possuía habilidade para dispersá-la.

Tulzim se levantou e retomou seu caminho até a estrada, colocou seu capuz, chegou até a porta da cidade e pediu passagem, os guardas do portão prepararam suas flechas, enquanto um dos homens do rei esbravejava detrás do portão:

– Pessoa parada perante o portão de Burein, responda rápido e livre de qualquer requentada resposta sem verdade: Quem é e o que quer?

– Sou o Mago e quero que pare com as aliterações e assonâncias, você claramente não é nenhum poeta e eu estou sem tempo, você me irrita. Anunciem ao rei Scazzer que eu estou aqui.

– Fala como se eu tivesse a obrigação de adivinhar que Mago é você. Sua ordem está em guerra por violar a paz do rei, não pode passar aqui…

Antes que ele terminasse sua exibição de poder, o Mago parecia maior do que já fora, seu olhar passara de um preto calmo e cansado para um cinza que faria chover a qualquer instante, seu sorriso parecia um raio e sua voz soou como um trovão enquanto repetiu uma simples palavra?

– Tuk!

Os portões se desintegraram, as muralhas vermelhas racharam, as flechas nas mãos dos arqueiros desfizeram-se como areia, o vento em volta dele parecia capaz de fazer a cidade inteira voar, mas sua longa barba e sua capa esvoaçante nem se moviam ao vento, como se tudo estivesse na mais perfeita bonança, o jovem cavaleiro balbuciava alguma coisa, mas era inaudível, tentou alcançar sua espada mas um simples olhar, aquele olhar cinza o dissuadiu.

– A paz e o seu rei andam em caminhos distintos, peão, eu vim aqui ver seu rei, diga-me, terei que assolar toda a cidade para isso? Ou aquele pescoço de galinha virá ouvir a sabedoria?

Da descida da avenida principal uma trombeta já abria o caminho, o alazão do rei já fazia seu trote e era visível em seu pelo branco brilhante ao longe, vinha o rei, sozinho, de uma audácia tremenda e o tom de desafio que o deixara famoso no continente.

O mago esperou o rei no exato lugar em que estava, não se moveu.

Ergueu seu cajado quando Scazzer se aproximou, o rei brandiu sua espada no ar, todos os arqueiros prepararam novamente suas flechas, o cavaleiro medroso agora se encheu de desafios, puxou sua espada e preparou o cavalo rindo em tom de ameaça.

– Scazzer, seus seguidores incendiaram a torre de Conners a um dia e meio da sede da Ordem, eu sou o mensageiro da retaliação.

– E vai fazer o que? Incendiar sozinho essa cidade? Ter-lhe-ia sido mais útil conjurar suas magias enquanto a cidade dormia, eu te vejo, Haddrom, te mataremos antes que possa concluir qualquer encantamento.

– Eu não sei com quem pensa que está lidando, garoto-rei, mas eu estou aqui desde muito antes do seu avô usurpar o trono dos Thalba, e eu estarei aqui até bem depois que seus netos deixarem de respirar, isso eu lhe asseguro. – Enquanto dizia essas palavras um pedaço da muralha incendiou, consumindo os arqueiros no topo dela. – Eu sou a força que você jamais vai domar, você sempre será menor que o saber da ordem, eu incandesço e fumaço, eu chovo e eu seco, eu empilho e eu espalho, construo e destruo, a sua sentença é simples e lhe será penosa, farei do templo de Calabhor minha casa, eu existirei aqui, até que a torre de Conners seja reconstruída, ou que seu espírito abandone seu corpo.

– É só isso? posso mandar incendiar o próprio templo com você dentro, e mais, marcharei contra a cidade centro da ordem dentro de quarenta dias, vocês magos vão parar de pensar que estão acima das leis do rei, não sei se ficou claro, velhote, mas isso tudo é uma guerra, eu vou livrar o reino da praga que vocês magos são, sua magia não será o suficiente para evitar meu poder, seu conhecimento não suportará a minha ira, meu povo e meus exércitos vão consumir vocês tanto quanto o fogo destruiu a torre daquele imprestável.

– Vocês reis acham que mandam em alguma coisa, vocês simplesmente representam seu povo no contrato de existência, representam, não mandam, não são donos de coisa alguma. Mas deixe estar, vou te mostrar que nada é seu para mandar. Eu serei a mosca em sua sopa, o ponto de interrogação ao final de cada uma de suas frases, você acha que a paz é sua, que as leis são suas, que os povos e as terras te pertencem, uma lua Selenyum engoliu, a outra ele não conseguiu. Você não será suficiente para segurar o furacão, eu tempestadearei sobre você até que tudo se torne pó.

O mago andou até o templo enquanto o rei esbravejava às suas costas, nenhuma espada era erguida contra ele, nenhuma flecha disparada, o dia subiu quente e seco, mas um vento impetuoso surgia dentro de cada casa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s