Derrotas.

Perdi. Perdi muito. Acho que vou continuar perdendo, e talvez só perca porque nem sei que jogo é esse.

Algumas quadras abaixo da minha casa tem um parque, nessa época do ano as folhas caem muito e o parque fica em uma cor meio amarelada e com um contraste de marrom e um verde meio seco das árvores morrendo e das folhas caindo, é o começo do espetáculo de renovação que a natureza promove todo ano, quando ela zera tudo e recomeça, nem sempre do zero, mas, você entendeu.

Nos finais de tarde o tom alaranjado do sol refletindo meio rosa nas nuvens carregadas das chuvas que estão para chegar providenciam um belo contraste nesse parque, passo sempre por ali ao voltar do trabalho, como alguma coisa no carrinho da quitandeira e aprecio o por do sol antes de ir pra casa, a vida anda parada, meio estável de mais, nada dando muito certo, como sempre, mas, nada fugindo do controle também. Me pergunto onde é que eu estou me sabotando agora, não estou acostumado a ver as coisas andarem bem com tão pouca adversidade.

O que eu não conseguia evitar era a constante sensação de derrota que me pairava. A sensação de que não importava o quanto eu jogasse, quando eu chegasse em casa e ligasse no telejornal, a manchete anunciaria minha derrota, minha constante derrota.

Quase todo fim de tarde, nesse mesmo parque, dois senhores se sentam na mesma mesa e jogam o mesmo jogo com peças diferentes, já ouvi dizer que são inimigos de longa data, que se odeiam profundamente por causa de desavenças do passado. Se você só estiver de passagem, vai pensar que ali existe uma longa e duradoura amizade,  sentei na mesa ao lado, peguei um jornal e pus-me a ouvir o que conversavam durante uma partida.

“Já começa errado! Parece que é a primeira vez jogando isso!”

“Cala a boca e me deixa seguir meu raciocínio.”

“Chama isso de raciocínio?”

E até essa parte da conversa eu realmente pensava que um, na verdade, não existiria sem o outro, o que faz muito sentido porque mesmo opostos, um completa a rotina do outro. Até que no meio do jogo eu comecei a indagar o que é que havia iniciado toda aquela rivalidade, ri, pensei que provavelmente seria algo que a essa altura do campeonato deveria ser insignificante, aquelas coisas pequenas que logo que ocorrem parecem maiores que o mundo pra nós, coisas como apostar nos dados quem vai chamar a fulaninha da sala pro cinema, o mesmo cinema pro qual iria a galera inteira da sala e em cujo rolê a fulaninha ia acabar beijando o fulano do outro grupo da sala e os dois teriam ficado boquiabertos e atirando a culpa um ao outro, coisas que quando a vida passa e você já se estabilizou, encontrou sua alma gêmea, tem seus filhos criados e já é aposentado não devia significar tanto.

Um tempo passou e o jogo esquentou, alguns insultos foram proferidos e desabafos foram contidos em movimentos de peças, a essa altura já nem fingia mais que lia o jornal, só observava e escutava atentamente, não, não havia nada de trivial entre os dois, não era um encontro do Professor Xavier com o Magneto, era um encontro entre Hamlet, o Rei, e Cláudio, seu algoz. 

Não havia cordialidade entre nenhum dos dois, haviam apenas derrotas, onde quer que se encontrassem, o esforço de um era simplesmente direcionado a ver o fracasso do outro. Ambos haviam se despido de significado de forma tão grande que pelo menos ali, durante aquele jogo, a única vida que havia, consistia em não deixar que o outro vencesse.

Perto do final do jogo o mistério se desvendava para mim. A decisão de um tirou do outro a chance de viver, a resposta do outro reaviva a decisão ruim do um. Um dos dois tem ao seu lado as regras do jogo, o outro um apelo emocional absurdo, e então percebo que o jogo em nenhum momento fez sentido, poderiam estar os dois ali apenas discutindo, se insultando, brigando sem sujar as mãos, movendo peças alheias a quem vê, enquanto deitam-se sob o passado e desaproveitam o tempo que lhes resta para discutir por ele.

“Você me pede que não lhe sabote o plano porque causará a derrota de ambos, o que talvez não lhe ocorra é que desde sempre eu nunca tive chance, você me tirou a chance, eu nunca vou te dar paz por isso! Se você ainda não viu, num panorama geral eu ganhei, porque toda vez que você não vence já é uma vitória pra mim.”

Às vezes penso que enquanto humanos, a única coisa que sabemos de verdade é brigar. Brigar e errar, em uma tentativa fútil de nos tornarmos o topo de uma cadeia alimentar estúpida e inventada por nós, errados e brigamos e nos mostramos tão comuns quanto os animais que julgamos tão abaixo de nós. Existem, sim, brigas eternas por motivos fúteis, e também brigas curtas por motivos eternos.

E me parece que um dos dois entende que joga porque perde, e porque perde volta pro jogo , o jogo não é um desperdício de tempo, é a sua única forma de se impor, sua única forma de existir sem ceder, mesmo que perca, é melhor perder brigando do que perder se rendendo, perder é mais parte do ser humano do que brigar, perder talvez seja o verbo mais humano, mais mal conjugado, mais próximo de nossas vidas e mais distante da nossa cognição.

Preciso aprender a perder.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s