Reflexões em Every Breaking Wave, do U2

Comecei esse texto no pensamento de realizar uma análise, aplicando os conhecimentos de música e lírica que adquiri ao longo dos anos, mas acabou passando pra uma perspectiva talvez menos teórico-técnica e se tornou uma reflexão, em tempo, uma devocional.

A música foi composta pela galera do U2 mesmo, e é parte do Álbum Songs of Inocence, de 2014.

A dualidade que o Bono já tantas vezes afirmou apreciar nos Salmos de Davi estão muito fortes nessa música, mas com um lado mais pra baixo, meio ‘Blue’ numa pegada muito mais próxima de Salomão em Eclesiastes, mas com o final num tom elevadíssimo.

Essa é uma música sobre derrota.

E esse tema tem sido muito repetido nos textos desse blog, talvez pelo lugar de que falo no momento, mas também porque acredito ser um tema relevante porque nós, enquanto raça humana, não sabemos perder.

Antes de começarmos, escuta a música de novo comigo, essa é uma das performances mais brilhantes de Bono Vox, é de 2014 e ele demonstra uma potência e um alcance vocal incrível, além de exibir a interpretação da letra como um ciclo vulnerável em vários aspectos da sua performance de palco, não só dele como da banda também, os quais talvez falemos em algum outro momento.
Vem nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=cszigsFaChc

Caso você prefira uma versão legendada: https://www.youtube.com/watch?v=RxgrO7mrcA4

Faz o seguinte, deixa a música tocando de novo enquanto você lê.

Every breaking wave on the shore,
Tells the next one there will be one more.

A poesia já começa apresentando um ciclo, uma onda puxa a outra e repassa sua sabedoria, sempre vem uma outra depois dela. O que ecoa na minha cabeça é sempre a repetição de Eclesiastes, vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade.

Nada tem sentido por si só e tudo se resume em correr atrás do vento, como ondas, essa movimentação toda e essa correria toda só ressalta a efemeridade das coisas insólitas da vida, afinal de contas a vida vem em ondas como o mar, e não se assustem, mais cedo ou mais tarde Lulu Santos ia brotar nesse texto, essa é uma análise séria.

Os dois primeiros versos são aparentemente octossílabos, o que bem agora só vai determinar uma sequência rítmica no texto. Dentro da música essa variação métrica divide cada verso em dois grupos de quatro sílabas, a repetição espelhada entre esses dois versos dão uma sensação de pêndulo, pra facilitar um pouco a nossa figura de linguagem, a sensação é de estar no mar, balançando com ondas que vem e vão.

And every gambler knows, that to lose,
Is what you’re really there for.

Essa segunda frase quebra a ideia de mesmice com uma figura extremamente pessimista, estamos aqui pra perder, e o fato de que todo jogador sabe disso talvez nos indique que nós, que não jogamos, não saibamos dessa verdade, de fato, sabemos sim, só precisamos ser constantemente lembrados disso, estamos aqui exatamente para perder.

Tem uma conversa do Ragnar com o Bjorn sobre felicidade no episódio Brother’s War, o primeiro da segunda temporada de Vikings, (inclusive incrível esse episódio, um dos meus favoritos) o diálogo vai mais ou menos assim:

Bjorn: Ela traz infelicidade e dificuldade; Não consegue ver isso? Está cego?
Ragnar: Eu sei que é difícil pra você aceitar mas, a infelicidade é mais comum que a felicidade, quem disse que você devia ser feliz?

Veja bem, quem foi que disse que você tem que ser feliz?

Você chegou à essa conclusão sozinho?

Acredito que você foi enganado, eu fui enganado. Fomos criados sim para sermos felizes, mas aí a gente mordeu um fruto e a felicidade nos foi negada. Agora ansiamos pela felicidade mais do que tudo, e de fato teremos, em algum ponto essa felicidade almejada, mas não nesse mundo, nesse plano de existência, não nesse sopro de vida que temos, que pela manhã existe e à tarde se extingue, não, aqui temos lampejos dessa felicidade, fragmentos de alegria coletados aqui e ali, em uma ou outra experiência, e por mais que durem anos, quando se experimenta esse fragmento de felicidade sem a certeza de que a qualquer momento se está voltando pra casa, esse fragmento só aumenta a dificuldade do próximo momento, aquele lance que o Lewis dizia sobre um desejo que não pode ser saciado por nada nesse mundo.

Estamos aqui pra perder, e isso dói, os jogadores que sabem que jogam para perder comemoram cada derrota como se fosse uma vitória, e isso é outro aspecto caótico da doença humana, comemoramos uma guerra vencida, uma eleição vencida, um primeiro milhão, comemoramos a onda que quebra e por aí vai, derrotas, humanos comemoram derrotas, maquiam-nas como se fossem vitórias e comemoram-nas.

Não que não existam vitórias, elas existem, só que elas são o exato oposto do que geralmente compreendemos como vitórias. É uma vitória o voltar pra casa no fim do dia mais estressante possível no serviço, é uma vitória chegar se arrastando ao fim de um semestre intenso, é uma vitória ver o outro comemorar algo que pra você nem é tão importante assim, e fica bonito quando tá escrito, porque aqui é bonito, mas na vida real, fora do escrito, costuma bater aquela bad por chegar em casa e saber que além de muita coisa pra fazer, vai ter a mãe brigando pelas coisas não feitas, ou um amor com alguns problemas, bate aquela indignação por todos os trabalhos do fim do semestre, bate aquela inveja do outro por estar comemorando algo tão banal.

A derrota faz parte do ser humano.

Summer I was fearlessness, now I speak into an answer phone.
Like every falling leaf on the breeze, winter wouldn’t leave it alone.

As estações do ano aparecem como marcação do tempo de uma narrativa, no verão, na juventude, no começo, sem medo, ansioso, abraçando o mundo com as pernas, agora quebrado, ligando para não ser atendido, jogado de um lado pro outro como uma folha que cai na briza, o inverno veio finalizar o serviço, os anos passam e nos quebram, dobram nossa vontade, extinguem o fogo da juventude, o calor do amor jovem, a força de vontade, somos deixados secos, como folha ao vento.
E o que é que a Bíblia comenta uma vez a respeito disso?

Ah! É mesmo, não sejam como folhas que são levadas por qualquer vento. (Ef. 4.14)

Sai o gosto salgado e agora a derrota tem um sabor seco, ardido, de quem cai mas é arrastado de um lado pro outro de quem é batido até não conseguir mais se segurar.

Essa é a parte que a estrofe atinge seu ponto mais baixo antes de estourar no refrão como se no topo da próxima onda. É aqui que o eu-lírico sutilmente sugere que não sabemos lidar com a derrota, ela é sim, parte de nós, mas se soubéssemos lidar com ela, a coragem do primeiro verão não se converteria nesse arraso que o inverno faz com a gente.

If you go, if you go your way and I go mine,
Are we so… Are we so helpless against the tide?

De uma forma mais particular, eu posso ver um contexto no qual o eu-lírico se refere a um relacionamento daqueles bem tóxicos, daqueles tipo Jimmy e Gretchen de You’re the worst, aquele relacionamento não é ruim só pros dois, é ruim pra todo mundo ao redor dos dois, e o eu-lírico está, nessa música tentando entender porque é que soa tão difícil romper os laços, ir cada um pro seu lado e “Até logo, até mais ver, bon voyage, arrivederci, até mais, adeus, boa viagem, vá em paz, que a porta bata onde o sol não bate, não volte mais aqui, hasta la vista baby, escafeda-se e saia logo daqui” o eu-lírico encontra-se tão aprisionado à esse relacionamento tão fadado ao fracasso que se sente perdido se cada um for pro seu rumo, como se uma folha caída da árvore não fosse ser deixada pelo vento do inverno, fosse arrastada sem rumo de um lado pro outro.

Mas, além disso tudo, Are we so helpless against the tide é uma pergunta que indiretamente fazemos como uma frequência absurda.

Vivemos de nadar contra a correnteza, contra a maré, vivemos de andar na contra-mão, como se o mundo andasse no rumo do desfiladeiro e você estivesse sozinho caminhando contra a multidão que faz de tudo pra te arrastar. Am I so helpless against the tide? Sim e não.

Primeiro, sim, a maré é mais forte que você, é maior do que eu, e eu posso até nadar contra ela, mas eu é que não vou me mover do lugar em que estou… Segundo, não, porque até a maré se reporta à lua, a correnteza se reporta à gravidade, posso estar sim, helpless, mas acredito que não estou, posso estar parado aqui sem sair do lugar, como me sinto mais vezes do que gostaria, mas não estou.

O eu-lírico olha pros céus e pergunta pra Deus: “e se Você for pro seu rumo e eu for pro meu? Nós humanos estamos assim, tão à mercê da maré?”

É nessa dualidade que o Bono trabalha, em Beautiful Day ele chega a dizer “You know I’m not a hopeless case”, Still haven’t found what I’m looking for é uma das músicas que mais afirma a certeza do autor na purificação da cruz e na perfeita vida eterna e ainda assim explicita a sede que ele sente porque o seu clamor de “One”, “Pride” e “Sunday, Bloody Sunday” ainda não foi atendido. É quase um “Eu não sou nada sem Ti”, um “Pra quem iremos nós se só Tu tens as palavras de vida eterna?” que carrega em si um pouco de raiva misturado com amor, uma esperança misturada com um leve desespero, a abertura do refrão é um dos pontos mais vulneráveis da música.

E aqui vem a sentença mais pesada dessa música:

Baby every dog on the street, knows that we’re in love with defeat!

Ai, Caramba!

Pra começo, você já deve ter visto a expressão “dia de cão”, você pode até olhar pro seu cachorrinho aí na sua casa e pensar, vida dos sonhos, certo, comer, dormir, alguém pra limpar suas merdas e te dar carinho. Well, nope, esse é um cão de rua, sem saber quando é a próxima refeição, sem saber se dá pra completar o sono no lugar menos desconfortável que você encontrou sem ser incomodado por algum humano maluco ou por uma chuva gelada pra caramba.

É esse tipo de cão que é usado como figura de julgamento, é aquele cão, sem ter o que comer é que nos olha sabendo que amamos a derrota, é esse cachorro na rua, correndo por sua vida que nos olha com um olhar de reprovação, aqui a derrota assume uma certa personificação, no fluxo de consciência do eu-lírico, a derrota é parte do ser humano, e que o ser humano não sabe lidar com a derrota, ele a transforma em destruição, ele se perde, ele morre, ele se solta, ele se deixa ser levado por qualquer vento de solução fácil, e o que acontece se eu tentar parar de bater a cabeça na mesma parede? Eu não vou, vou? Acho que não, eu não largo o osso, eu-humano, sou apaixonado pela derrota.

Mas, agora que eu sei disso tudo, será que eu largo?

Are we ready to be swept of our feet
And stop chasing
Every breaking wave?

Será? Por que sim? Ou, por que não?

Every sailor knows, that the sea is a friend made enemy
And every shipwrecked soul, knows what it is to live without intimacy

O mar é provavelmente a figura central nessa música a principal imagem utilizada, e aqui o marinheiro, o navegante, e a alma náufraga se encontram, o mar era um amigo, e agora é um inimigo, de quem? Da intimidade. O mar era, em verões passados o símbolo do desconhecido, do que precisava ser conquistado, conhecido, era o símbolo de infinitude, o ilimitado, o ímpeto incontrolado, e agora ele é a cadeia, o marinheiro com seu navio naufragando, sozinho, o inverno veio, e agora conhecemos mais do espaço do que do oceano, o mar continua com seus segredos, continua livre (beeeeem poeticamente falando) da invasão destrutiva do homem, começamos nossa viagem acreditando sermos os maiores e melhores navios já construídos, desenhados para vencer, e alcançamos essa parte da viagem se sentindo o próprio titanic, aquele gostinho de fracasso na garganta.

I thought I heard the Captain’s voice
It’s hard to listen while you preach
Like every broken wave on the shore, this is as far as I could reach

O eu-lírico teve um lampejo de esperança, ele acreditou ouvir a voz do capitão ditando seus próximos movimentos, como solucionar isso, como tirar esse gosto de derrota salgada da garganta, a voz do capitão é a solução pronta, de quem é maior e melhor, de quem está acima da cadeia de comando, mas tem alguém pregando por cima, uma interferência, alguém passando um sermão que só piora as coisas, um sermão que você tem certeza de que não devia estar ali, interferindo na voz que é a solução, é um sentimento de derrota que as vezes é encontrado no banco da igreja, quando parece que tudo o que você fez não tá adiantando, que servir o Corpo naquela localidade é só mais um acúmulo de fracasso, a mesmice toma conta e quando você vai procurar a resposta, tem alguém no púlpito pregando sandices, piadas, caprichos pessoais e fábulas, é difícil ouvir a Voz com uma interferência dessas, e a sensação é de que não dá pra ir além, chega, nadei nadei nadei e morri na praia, como uma onda partida, esse é o máximo que consigo, e bem aí, onde acaba o esforço do eu, a corrida eterna atrás do vento, é que a Voz encontra o ouvido do eu-lírico, é aí, que a derrota faz sentido, que o gosto de derrota some, é aí que se aprende:

The sea knows where are the rocks
And drowning is no sin
You know where my heart is
The same place that yours has been
And we know that we fear to win
And so we end before we begin

E ali, na hora que se reconhece que o esforço não vai me levar além da praia, que o esforço só vai me servir como um chão, uma base de conforto pra que eu fique preso num ciclo de onda que se levanta, cai e quebra na praia, é aí que se aprende que o mar sabe exatamente o que está fazendo com as suas ondas, o mar sabe porque é que seu barco naufragou, e onde é que você afundou, perder não é pecado, o pecado é o coração fora do lugar, e o grito do eu-lírico é pra Deus, é um pedido de socorro de alguém que diz como Davi, “meu coração está em ti” e que ainda assim teve que experimentar a derrota, porque é na derrota que o nosso espírito é aperfeiçoado, não saímos do Éden pra viver uma série de 5 vitórias, 5 empates e 5 derrotas, saímos pra fazer uma pá de empates, uma porção de derrotas e só uma vitória que seja vitória mesmo, AQUELA VITÓRIA, a última, só ganhamos o último jogo porque é só ele que importa, todos os outros resultados são só um aquecimento, esse é um torneio de um jogo só e precisamos entender que não vencemos no nosso esforço, não é remando, é deixando o próprio mar levar o barco.

Mas nós, apaixonados pela derrota, temos medo da vitória.

Então nós provocamos as nossas próprias derrotas, porque vencer significa entender que sou bem menor do que pensei que era, significa entrar no mar se vendo como uma pedrinha minúscula e insignificante, um grão de poeira, vencer significa não jogar.
Se você for por um caminho e eu por outro, eu perco.
Eu estou completamente à mercê da maré, eu não luto contra o mar, eu não preciso mais do meu chãozinho seguro, quando o mar me levar pra onde ele quiser eu vou finalmente parar de perseguir cada onda que quebra e aí, no fim do ciclo, a vida faz sentido completo.

E é só aqui que a segunda parte do refrão faz um real sentido, só quando se olha o todo se entende aquela parte, estamos prontos para perdermos nosso apoio? Pra parar de perseguir cada onda que quebra? Eu espero que eu esteja, já passou da hora.

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